Programas de Rastreamento

Você sabe qual o objetivo de se rastrear alguma doença? Você conhece os programas de rastreamento bem estabelecidos e recomendados pelo Ministério da Saúde? Você sabe quais doenças devem ser rastreadas e como? Neste texto vamos abordar esses temas e trazer informações que serão de grande valia para sua saúde.

O termo rastreamento traz em si a ideia de se detectar doenças em pessoas saudáveis, ou seja, que ainda não manifestaram sintomas. O objetivo do rastreamento é, portanto, realizar diagnóstico em fases iniciais e com isso reduzir a morbidade e a mortalidade causadas por algumas doenças.

É importante ressaltar que não são todas as doenças que tem indicação de rastreamento, para isso existem alguns critérios. São eles: deve se tratar de doenças com quadro clínico e evolutivo bem conhecido, que sejam possíveis de serem diagnosticadas na fase assintomática, que existam exames disponíveis, acessíveis e confiáveis para o rastreamento e, principalmente, que o benefício da detecção e do tratamento precoce seja superior do que se a condição fosse tratada no momento habitual de diagnóstico.

Os programas de rastreamento mais conhecidos, normalmente mais divulgados pela mídia, são aqueles que objetivam o diagnóstico precoce de neoplasias, como câncer de colo de útero, câncer de mama e câncer colorretal. Ao final deste texto, disponibilizei uma tabela com as recomendações e periodicidade desses rastreamentos para você se programar.

 Ah, você pode estar achando que eu me esqueci de mencionar o câncer de próstata, mas não. O Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde não recomenda que se realize o rastreamento do câncer de próstata, ou seja, não é indicado que homens sem sinais ou sintomas façam exames de PSA ou toque retal. Apesar de campanhas como o Novembro Azul reforçarem essencialmente seu efeito benéfico, já é sabido que no rastreio do câncer de próstata o balanço danos versus benefícios claramente pende para os danos.

Para além do rastreamento do câncer, há outras condições que também podem ser rastreadas, com efeitos benéficos para sua saúde. Por exemplo, em pacientes com mais de 40 anos é recomendado rastrear o risco de ter um infarto ou um AVC(“derrame”) nos próximos 10 anos. Isso pode ser realizado através de uma boa entrevista clínica, alguns exames complementares e do uso de algumas calculadoras médicas que analisam todos esses fatores em conjunto e conseguem estimar o risco de um desses eventos. A partir daí, então, o seu médico pode orientar e prescrever medidas com o objetivo de reduzir este risco.

Condições como Hipertensão Arterial e Diabetes Mellitus também podem ser rastreadas. Para a Hipertensão Arterial, é recomendado que pessoas acima de 18 anos mensurem a pressão arterial ao menos a cada 2 anos. Já no caso da Diabetes, de acordo com a Sociedade Americana de Diabetes, o rastreamento é indicado naqueles indivíduos que tem fatores de risco para Diabetes, como por exemplo ter um parente de 1º grau com a doença(pai, mãe ou irmãos).

Um rastreamento indicado, mas que infelizmente ainda é visto como “tabu”, são os exames para rastreio das doenças sexualmente transmissíveis(DST), sendo as mais comuns o HIV,  a Sífilis e as Hepatites B e C. São doenças que se comportam de maneira assintomática ou subclínica durante anos, que podem trazer complicações importantes, além do risco de transmitir para o seu parceiro(a) e assim propagar a infecção. O seu médico deve sempre lhe oferecer a realização dos exames para rastreio de DST’s, sobretudo se você tem uma vida sexual ativa.

Para finalizar quero chamar atenção para o que há de denominador comum nos programas de rastreamento, ou melhor, o que está nas entrelinhas em meio a essas informações: a importância de você ter seu médico clínico de confiança, que vai te acompanhar ao longo da vida, conhecer seus riscos e te orientar quanto aos rastreamentos que são indicados no seu caso, bem como outras intervenções que se fizerem necessárias. 

Sempre é válido ressaltar: em todas as condições médicas, como nas intervenções de prevenção e rastreamento, não reduzamos a consulta médica e a relação médico-paciente a uma lista de exames, e muito menos a uma série de condutas baseadas no senso comum. Procure um profissional que exerça boas práticas médicas – o bom médico é aquele que escuta o seu paciente, informa, orienta e prescreve com base nas melhores evidências cientificas existentes no momento.

Recomendações de Rastreamento de acordo com o Ministério da Saúde e o INCA

Programa de Rastreamento

Quem rastrear?

Quando iniciar?

Quando parar?

Qual periodicidade?

Comentários

Câncer de colo de útero

Mulheres sexualmente ativas

A partir dos 25 anos

Aos 65 anos

Anual

Após 2 exames normais, pode ser repetido a cada 3 anos

Câncer de mama

Mulheres

A partir dos 50 anos*

Aos 75 anos

A cada 2 anos

O início do rastreio e a periodicidade do exame é determinada de acordo com os fatores de risco para o câncer de mama.

Câncer colorretal

Homens e mulheres

A partir dos 50 anos

Aos 75 anos

A cada 10 anos (se colonoscopia) ou A cada 2 anos (se pesquisa de sangue oculto nas fezes)

A periodicidade do exame é menor no caso de história familiar positiva para câncer colorretal em pais ou irmãos.

Adaptado de https://unasuscp.moodle.ufsc.br/pluginfile.php/164858/mod_resource/content/37/Rastreamento/index.html#un2

*A Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda o rastreio do câncer de mama a partir dos 40 anos.