A cultura do check-up

Quem nunca agendou uma consulta para fazer um check-up que atire a primeira pedra! No início do ano, quando as pessoas ainda estão sob o efeito das promessas do ano novo, cuidar melhor da saúde quase sempre entra na lista para o ano que virá. Tão logo inicia janeiro, lá estão elas agendando sua consulta médica para realizar o famoso check-up anual.

Agora eu te pergunto: Você já parou para pensar se essa prática de fato tem benefícios para a sua saúde? Arrisco-me a dizer que a enorme maioria das pessoas dirão que sim, pois entendem que estão “prevenindo alguma doença” ou as descobrindo “precocemente”. Porém, não é bem por aí e nem tão simples assim.

A primeira questão a ser levada em consideração é que não há uma lista de exames, como uma receita de bolo, que possa servir para todo e qualquer paciente. Os cuidados de prevenção, que incluem não só exames laboratoriais, mas principalmente exame clínico e orientações médicas, devem ser individualizados e realizados com base na idade, nos hábitos de vida, nas doenças existentes e na história familiar do paciente. Dessa forma, entendemos a quais riscos nossos pacientes estão expostos e como intervir para evitá-los.

O segundo ponto diz respeito aos possíveis maléficios que um rastreio laboratorial ou de exame de imagem pode trazer. Realizar intervenções sem indicação ou evidência de benefício pode levar a uma situação que chamamos de “overdiagnosis”. O “overdiagnosis” é o excesso de diagnóstico, quando se identifica alguma doença ou condição que nunca provocaria sintomas, tampouco causaria repercussões na vida do paciente. E uma vez feito esse diagnóstico, quase sempre ele é acompanhado por um excesso de tratamento, igualmente dispensável e não menos prejudicial ao paciente, conhecido como “overtreatment”.

Outra reflexão válida neste contexto divido com vocês através de um exemplo: você marcou sua consulta, fez seu check-up e eis que descobriu que sua taxa de colesterol está acima dos níveis recomendados. Talvez você ganhe uma receita de uma medicação que reduza o nível de colesterol no seu sangue e volta para casa feliz achando que recebeu um tratamento que vai te trazer saúde e por isso você vai viver mais, certo? Errado. Alguns estudos clínicos randomizados mostraram que tal intervenção pode sim melhorar os níveis de colesterol, mas não há evidência de que essa medida isolada tem impacto na redução da mortalidade.

Por fim, mas não menos importante, é que uma lista de exames dentro dos valores de referência pode dar ao paciente a falsa ilusão de que está tudo certo com sua saúde. E enquanto isso, ele continua fumando um maço de cigarro por dia, consumindo bebida alcoólica em excesso aos finais de semana, fugindo da atividade física regular e comendo produtos industrializados na redes de fast food. Portanto, fica a dica: não se deixe enganar por uma folha impressa do laboratório, ela diz muito menos da sua saúde do que os seus hábitos de vida.

E então, fazer ou não fazer o check-up? Há um consenso na literatura médica que não recomenda check-up anual para adultos jovens sem doenças.  Mesmo com todas as limitações já discutidas, recomenda-se que pacientes com menos de 50 anos, assintomáticos e que não são portadores de doenças crônicas, como por exemplo Hipertensão e Diabetes, devem realizar uma consulta médica a cada 3 anos. Já para os pacientes com mais de 50 anos, que também não possuem doenças crônicas, recomenda-se uma visita médica anualmente.

É importante ressaltar que aqui estamos falando de adultos saudáveis, ou seja, sem doenças e sem sintomas atuais. Para aqueles que possuem alguma doença o intervalo de consulta médica e exames é individualizado e varia conforme a doença e se ela está ou não controlada. Também não cabe nesta discussão os programas de rastreamento de câncer(como mamografia, colonoscopia, entre outros), bem como as recomendações especificas para cada grupo etário. Nestes casos existem fortes evidências que tais intervenções tem benefício e impacto na redução da mortalidade. Falaremos dos programas de rastreamento numa próxima oportunidade.

O que há de mais valioso na realização de um check-up infelizmente costuma ser negligenciado: a consulta médica em si e a relação médico-paciente. Ao procurar um médico para um check-up entenda que não se trata de uma simples consulta da qual você sairá com um pedido de exames. Ao contrário, é um momento propício para o médico conhecer seu histórico de saúde, suas demandas atuais, te examinar, te dar as orientações cabíveis no momento, e que você pode ou não sair da consulta com um pedido de exames em mãos. Procure um profissional de confiança que tenha esse cuidado com você. Uma boa relação médico-paciente é sempre o ponto de partida para uma assistência à saúde de qualidade. 

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Escrito por Dra. Amanda Salvo – CRMMG 65064